quarta-feira, 26 de maio de 2010

Atacando de ficcionista.

Não costumava conversar com os amigos da juventude com freqüência, principalmente homens, e principalmente ele. Não que não tivesse vontade, mas porque preferia evitar alguma coisa que não sabia exatamente o que era. Também, pudera... o que conversar? Primeiro, são babaquices infantis, pensava. Ela tinha mais o que fazer: tinha uma família, consolava-se com aquela certeza pouco convincente de quem que pretende enganar a si mesmo. Segundo, há muito tempo não acontecia em sua vida alguma coisa empolgante a ponto de ser compartilhada.


No entanto, falara com ele naquela manhã e o telefonema a deixara, ao mesmo tempo, alegre e angustiada. Do outro lado da linha, histórias novas, narradas com entusiasmo, amigos, planos, encontros e surpresas. Ao mesmo tempo em que fugia da comparação, ela se tornava inevitável. “A vida inteira que poderia ter sido e não foi”, infelizes versos de Manuel Bandeira, facilmente recitados nas mesas dos bares na porta da faculdade, agora faziam tanto sentido.


Das outras vezes, deixava que o cotidiano corrido, o trabalho e as obrigações ocupassem seu pensamento, sem espaço para dúvidas. Sempre funcionava. Mas daquela vez perdera o controle da situação. Além de ter sido seduzida (sim, ela acreditava que estava sendo seduzida, pois é mais cômodo atribuir ao outro a culpa das desestabilizações de nossa vida) havia recebido um convite. O convite deixara em ebulição seu diálogo interior: o garoto pedia água, a mãe dava suco; a menina perguntava da mamadeira, a mãe respondia do remédio; o marido perguntava da roupa, ela respondia do jantar; os alunos perguntavam das notas, ela respondia da lousa.


Domingo, exausta, sentou-se e deixou-se conversar com a própria consciência. Sem perceber, começou a lembrar do tempo em que a vida parecia mais leve e mais fácil. Lembrava dos amores do colégio, das conversas com a mãe na cozinha, dos bailinhos ansiosamente aguardados por semanas, do tempo em que queria mudar o mundo, influenciada pelos discos e livros. Logo depois, lembrou-se dele e do Convite.


Olhou-se no espelho e, apesar do avental, da roupa que não a valorizava muito e dos cabelos um pouco bagunçados (e cheirando ovo), balançou a cabeça afirmativamente: sempre foi bonita. Olhou os livros, os cadernos, o computador e balançou a cabeça afirmativamente: sempre foi inteligente. Olhou ao redor, viu o marido assistindo televisão, as crianças brincando (ou brigando) no tapete e balançou a cabeça, negativamente: mais um domingo em família.


No dia seguinte, crianças na escola e marido no trabalho, sentou-se, resoluta, e redigiu a carta. Nela, colocou toda sua verdade, como nunca havia exposto a ninguém, talvez nem a si mesma. Fechou-a e guardou. Arrumou a mala e partiu. Semanas depois o telefone toca, era ele. O marido atende, lhe conta o ocorrido e ficam ambos sem entender muito, mas na certeza de que erraram em alguma coisa. Ela? Foi viver a vida que poderia ter sido e não foi.

.

Quem pergunta se é baseado em fatos reais se esquece que, de uma forma ou de outra, a arte é sempre baseada na vida.

: )

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Qualquer coisa