quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O besouro da 167


Cidade Universítária, oito horas da noite, quinta-feira: aula de Literatura Brasileira III. Corria tudo enfadonhamente bem, até o momento em que um besouro vindo do janela decide sobrevoar (ou quem sabe assistir?) a aula. A princípio, sua presença não alterou os (des)ânimos. O besouro voava ali, as cabeças voavam longe. Como o tempo, o besouro decide voar baixo, aproximando-se das cabeças (inclusive a do professor).  Era um notável besouro, enorme e intratável. O alvoroço foi geral. Infelizmente, não foi mais possível ignorá-lo e, felizmente, não foi possível continuar a aula. O besouro virou assunto e, sem muita dificuldade,  ficou mais importante do que romance nacionalista. Seu vôo ficou incontrolável, inconseqüente, insandecido... "Vai ver ele também não gosta de José de Alancar", pensaram alguns. Repentinamente, o incrível bicho voa em direção ao ventilador de teto e choca-se com ele várias vezes. Todos ficam em silêncio observando o revoltado animal. Então, após tomar fôlego, o besouro da 167 se choca mais uma vez nas hélices,  se despedaça  e cai  morto, exausto.  Os alunos vão tomando seus lugares, tentando esconder a decepção. Não há mais atração. Não é preciso limpar o chão para que a aula continue.

5 comentários:

  1. Essa aula é lendária. Corre pelos corredores há bastante tempo !! Foi do Hansen? Ou do Pasta?

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  2. Me peguei visualizando a cena do pobre escaravelho após o fato. Um mártir da literatura brasileira ali no chão esfacelado, esquecido, ignorado pelo grande mainstream universitário, renegado ao impropérios mais vis do rigor acadêmico. Um poeta maldito, enfim. O nobre coleóptero merecia um funeral mais digno. Ou talvez estivesse mesmo destacado a morrer como viveu, perdido no esquecimento da sala 167.

    Um Paul Verlaine entre os insetos.

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  3. o besouro!
    De onde viera este ser? E por que tamanha a insistência em bater contra a hélice?
    Me faz lembrar até de kafka e o homem que acordou inseto, ou de Raul Seixas com o seu sábio chinês e a borboleta.
    Imaginei-me num aflituoso e sombrio pesadelo sendo um besouro. Enorme de grande e que apesar de ter a atênção das pessoas, elas tinham medo de mim, acho que nojo também. Delas não conseguia me aproximar... mas... mesmo assim não me imaginei me debatendo ferozmente a uma hélice. É, talvez esteja mesmo além da minha imaginação como é a vida de um besouro grande e amedrontador.
    Adorei o texto Carol.

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  4. Carol, adorei seu blog. Inspirou-me até a fazer um. Dá uma olhada lá depois: http://naredeumcanto.blogspot.com/

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  5. Certa vez, isso ocorreu no metrô comigo.Uma libélula entrou no vagão, e vou lhe dizer, foi engraçado ver as pessoas se atirando no chão.

    Sobre o caso do suicídio, se é verídico ou não, dê um uma olhada na pagina de comentarios do post, eu lhe respondi ;)

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